sexta-feira, 2 de abril de 2010

Espirais

Deste impulso porco que me faz enojar,
Perco-me em destinos que fogem pelas mãos.
Endereço-me para o local mais perto
Aquele que é fraco e disperso.
Sinto-me irregular como o vento
E devaneio por entre montes claros diferentes.

Sujo-me.
Não se vê o que possa limitar a imaginação,
Mas o sentimento impele a uma paragem discreta.
Afinal, escondo-me de uma figura que nunca existiu.
Sabe a paredes de pedra...
Finjo que o gosto excepcional, é fino como o sabor dos morangos.

Estou fechado num bloco
Todo ele de tijolo e betão armado,
Com telhados de vidro, que se sujeitam a cortes profundos.
Perdi-me em tamanho entretenimento
Choro, porque não sei como voltar do labirinto,
As silvas apertam-me as veias e expelem o veneno do desejo.

Mais uma vez o meu estômago quer sair pela boca.
Nem o que é meu quer estar comigo.
Vomito o ódio, os nervos e a raiva acumulada,
E fico quieto no meu buraco minúsculo.
Não quero que ninguém me veja,
Quero que me olhem, mas apenas como recordação de vida.

Amarro-me contra o ferro.
O frio sacia-me a queimadura que me ata,
É o destino repetido a cada sessão que me flameja.
Sou de um fogo fino, que perdura pelo tempo que resta de oxigénio.
Sou apenas uma explosão contida
Pois vivo num universo mais pequeno que o meu quarto.

A saudade aperta.
Já não sei para onde vou, para onde quero ir.
Sei que apenas sou...
Sou o que sou...
Mas não sei quem sou.
Penso. Mas não sei se existo mais.

Vasculho-me em pequenos contentores do lixo,
Vejo restos, degradação e humilhação.
Semeio a semente preciosa
Mas no título de vão em cada página que viro.
Sou sincero que comi do mesmo pão que tu,
Mas mereço a luz que me flui no corpo?

Render-me-ei.
O cansaço, já nem se sente cansado de tanta agonia que aí vi.
Perderei de pé justo
E saboreio cada pedaço, cada centímetro
De fel que lambi, em nome do desejo.
Desapareço envenenado, porque já nem conheço outro sabor.

J - 2010


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