terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Esperança

Sozinho.
Perdido neste grande oceano.

Vejo dois barcos num corropio,
Na busca de tesouros e almas rejuvenescidas.
Sementes de perigo, são deixados ao acaso.
Flutuam por rotas alheias,
E destinam-se à conquista do desconhecido.

Suas velas embalam com o vento.
Aventuras adormecidas com o esquecimento,
Procuram a fé da cruz que carregam.
Espalham um suave aroma,
De folhas que harmonizam o peito.

Seus feitos de luz cristalina,
Brotam de uma gelatina.
A esperança renasce com a nova vida.
Semearam o fruto prometido,
E divinamente, envolvem-se num manto de ternura.

Os céus abrem caminho.
A luz rebate-se sobre a via perfeita,
E apregoa-se a boa vinda,
De quem nunca se viu.
A árvore da vida é plantada.

A tua vinda, mexe nos cosmos da história.
Giram-se planetas para te acolher,
Brilham intensas estrelas,
que explodem, para criar vida.
O infinito é só teu.

O mundo fortalece na tua presença.
Os muros caem ao sentir-te,
Perfeito rumo de letras
De um toque divinal dos teus lábios.
Abraço-te, na presença não existente.

Sonho com músicas de embalar
E prometo um mundo melhor.
Levo-me pelas cordas do desejo
Coordenando-me ao vento que me fala.
Atiro o meu destino ao mar,
Para que te entregue, o meu beijo.

A luz cresce no meu peito.
Choro da dor que me arde.
A minha vida vagueia num deserto azul,
Sem caminhos traçados.
Escondo-me na gruta do silêncio.

Eremito.
Escrevo páginas de eternidade,
Espero até as folhas ficarem douradas.
Tomarei o desejo como perdido,
Das juras já esquecidas na inocência do passado.

Abraço-me como te abracei,
No sonhos em que não te encontrei.
Serei o lume, que se apaga antes do fumo?
Esquecerei o que vivi.
Retomarei o rumo de um ritual,
Amarei o próximo, mas não como te amei.

Ajoelho-me perante a terra.
Choro, porque é de ti que me recordo.
Tu és a mais bela das terras.
És o meu elo de ligação espiritual.
És a minha divindade que não se vê.

Recolhe-me em pedaços de vidro.
Atirem-me aos céus!
Gritarei o teu nome e encadearei a quem me olhar.
Dar-me-ão mundo e eu serei apenas amor.
Nenhuma luxúria será mais importante que eu.

Transformo-me.
Serei o que sinto por ti.
A perfeição que se alcança aos olhos de alguns.
O coração que bate,
Com estalidos de brasas escaldantes.
A arma perfeita!

Dou-me!
Enlouqueço!

Oiço a tua voz.
Vejo o brilho.
O mesmo, que me faz lembrar o nascimento.
Vibro em contacto com o mar que me levou.
Sinto-te perto.

Oiço sons de guerra,
Que me crispam a alma.
O veneno que saboreio,
Ataca-me as entranhas.
Estás mais perto.

Duas figuras cristalinas,
Estão esfumaçadas de um negro pesado.
Empunham as suas razões de ódio
E apontam dedos aos céus que os iluminam.
Desnorteio-me da magia excêntrica,
Que me afasta da razão.

Vagueio pelo deserto seco.
De pele áspera e sem vida,
Sem retorno à luz que me guia.
Perdurarei até à última gota,
Agradecendo o sonho que senti.

Da ilusão, acordei enfim.

Revejo-me no tempo ganho
Que outrora era reconhecida.

Toco-me e lembro-me de ti.

O coração fortalece,
Entro no túnel dos sentimentos.
Oiço todos os sons da minha infância.
Agarro-me a tua energia.
Deixo-me embalar para que vá em paz.

O doce gosto na boca,
Revela-me um terno carinho.
A pele macia,
O cetim que me envolvia.
O cheiro que me dá vida,
A sensação de alegria.
Os olhos que me iluminam,
Encaminham-me para a vida.

Afinal, encontrei-te.
Estás sempre aqui.
Apenas tenho de acreditar,
Que o pedaço que dei de mim,
Nos unirá, em harmonia com os céus
E despertará, no dia que mais precisar de ti.

J - 2010


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Escape

Rodeio-me deste mundo morto
E velejo na água absorta.
O silêncio entranha-se na pele,
Respiro-o.
Não o esqueço.
Fujo!

Quero atirar-me para o infinito,
Viver o belo momento e esquecê-lo.
Quero vivê-lo constantemente.
Ganhar, perder e voltar a ganhar.
Quero enraivecer!
Quero cravar as unhas, no amanhã.

Vou explodir!
Eu sei que o farei.
Perderei os meus amigos.
Odiar-me-ão!
Depois posso voltar ao silêncio,
Com gritos de gaivota.

Vejo o brilho…
No fundo e bem centrado.
Será a nova cidade.
Percorro pé ante pé,
Devagar, para evitar armadilhas.
Silencio-me.

Quero-me enganar.
Espreito e oiço os gritos de outrora.
Sinto-me trucidado.
Quero vos ver.
Não sei como voltar.
Lamento pelos erros que cometi.

Ansiarei pela vossa chegada, neste porto de abrigo.
As cruzes subirão sob a água morta,
Serão os pilares que me agarrarão a esta terra.

Bebo a água que levará o meu corpo
E o sal que me enriquece,
Será o que me vai consumir.

J - 2010


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Dinheiro

A podridão do ser,
Embala os sonhos de criança.
Os objectivos, mesmo que puros,
Já estão decompostos à partida.

A pureza com que se imagina,
Esquece a verdade que se encontra adiante.
Os impetuosos, regem-se pelo sonho.
Os amantes, regem-se pela loucura.

A luxúria resplandecente,
Ofusca os que realmente querem ver.
A luz esconde os segredos,
Que perduram na escuridão.

Recorro aos demónios,
Em busca da palavra divina.
Espero pelos meus sonhos
E não uso o meu tempo.

Passo pelos desejos.
Vivo cada momento como meu,
E adoro quando me sento na pedra fria.

Acompanho os mendigos,
Que preferem o convívio da inocência.

O vento frio bate-me na espinha.
Sinto a dor a entrar nos ossos,
Como de quem dorme no mármore.

Fujo para o meu mundo perfeito,
Construído por sonhos e amor.

Para muitos, sou amigo.
Mas no meio disto,
Sou apenas outro mendigo,
De volta, aos sonhos esquecidos.

J - 2010


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Gelo

O sopro quente,
Nos campos areados.
Ardente,
Sufocador,
Alisante de caminhos perdidos.

Do fogo ardente,
Imagem desfocada pelo quente.
Abrasivo,
Açambarcador,
Destruidor de almas reluzentes.

As labaredas flamejantes,
Alimentadas pelo ar que os apanha.
Prisioneiro,
Amador,
Feridas de outrora, que mostram a dor.

Os restos de brasa,
Envolto no pó que semeou.
Frágil,
Perdido,
Fim do caminho, que colhe o destino escolhido.

J - 2010


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Destino

Talvez por ali?

Destino incerto das decisões.
A semente da lembrança que nos acuda.
Decisões recíprocas do passado que nos ferve,
Recolho os frutos de uma vida cansada.

As frustrações douradas,
Que moram num castanho imenso.

Quero que os meus olhos respirem,
Quero que condensem a triste vida.
Enxuto com o raiar de um dia novo.

Percorre-se uma linha preta,
Completamente às escuras.
Flamejo o meu ser
E recolho-me, para que me procurem.

Finto o destino.
Só eu decido, quando vou cair.

J - 2010


Loucura

Quebro o gelo com o calor da paisagem.

Transtorno diabólico da mente.

Num simples trejeito, reforço a vontade.
Não aguento mais estar cheio.
Adorno a planície com almas
Que me sossegam em silêncio.

Olho em volta da paz
E segredo agradecimentos.
Fujo da loucura mecânica.
Embalo-me num caminho longínquo,
Num espaço aéreo que me empurra para o chão.

A realidade é dura.
Extrema.
Vagueio neste caminho especial
Esqueço o que sou
E imagino o que quero ser.

J - 2010


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Abismo

Em cinzas desfaço o mundo
E do pó cimento a razão.
O relógio não pára,
Mas o coração também não bate.

Rolam ondas das janelas
Caiem secamente no chão,
No vazio de sentimento,
Olhando para o escuro do universo.

O sangue que corre nas minhas veias,
Encherá uma foz imensa.
Mostrará a minha luta das marés,
No sol escaldante, que tece a areia.

Erguem-se torres de água
Derrubam o inferno,
Que arde lentamente o sentimento
Mostrando a obscuridade do desejo.

Só.
Envolvo-me no negro.
Sou o centro do universo
Vagueio por aí...

O mundo é só meu.

J - 2010


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ninguém

Arrependo-me do amor.
Tão perfeito que ele é...
Mas escapou-se por entre as minhas mãos.

Vagueei por caminhos estreitos
Desço os desfiladeiros, atirando-me,
E acordo envolto em merda putrefacta.

Desejo estar diante de todos
Fechado numa caixa de madeira.
Entro no pensamento de cada um
E fujo fisicamente.

Desenrolo a passadeira a cada visitante meu,
Olho de frente para o meu corpo inerte
Sem vida e sem o sorriso de outrora.
Vejo o ar desgastado com que desapareci.

Assim me vejo num buraco
Cavado por mim.
É ainda maior que o medo que eu temi.

As moscas pestilentas, beijam-me os lábios.
Sorrio de olhos em sangue.
Afinal, sou beijado.

No podre do mundo, também mora o carinho.

J - 2010


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